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03/01/2024

Empresários/2023: o ano em que eles fecharam a porta à PróToiro

Luis M. Pombeiro e Ricardo Levesinho: dois dos principais
empresários tauromáquicos nacionais

Miguel Alvarenga – Não sou, nunca fui, um grande adepto de balanços e balancetes da temporada. Primeiro que tudo, porque já perdi há muito tempo aquela aficion enorme e apaixonada que me motivada para ir aos toiros e para ver tudo o que eram corridas, hoje vejo muito menos touradas por ano – e nesse tempo, estou a falar dos anos 60 e 70, havia novidades, apareciam novas estrelas, apareceu o João Moura, o Paulo Caetano, o João e o António Telles, o Bastinhas, o Salvador, depois o Salgueiro, o Rouxinol, o Rui Fernandes, e ainda havia o Veiga e o Batista e o Zoio e outros mais. Hoje é tudo sempre igual, é quase sempre tudo mais do mesmo e confesso que me falta tantas vezes a motivação de outros tempos para ir às praças.

E segundo, pela falta de empresários como os de antigamente. Sou do tempo – e digo-o porque esse era mesmo outro tempo, um tempo de classe, de nível e de seriedade, não o digo apenas por nostalgia – em que os empresários se chamavam Manuel dos Santos, Alfredo Ovelha, José Agostinho dos Santos, Jorge Pereira dos Santos, José Lino, Nuno Salvação Barreto, Manuel Gonçalves, Rogério Amaro, António Manuel Cardoso (Nené), António Paes de Sousa e Quintano Paulo mais o seu filho Cachapim, João Peças (em Estremoz), o Manuel João Maurício (Toquinhas) e o Carlos Ferreira (a dupla dos anos de ouro de Almeirim), eu sei lá quantos mais. Eram diferentes. Empreendedores. Inovadores. Sabiam estar. Sabiam ser. Sabiam da poda. Não montavam cartéis por simples interesses ou por trocas e baldrocas uns com os outros. Eram a sério. 

E hoje há poucos assim, embora reconheça que ainda há empresários válidos e que estão a manter a tauromaquia de pé – e até com algum esplendor. 2023, por exemplo ou por acaso, foi um ano de praças cheias, de lotações esgotadas, de muito público nas praças. Talvez um dos melhores dos últimos anos, nesse aspecto.

Luis Miguel Pombeiro, Ricardo Levesinho, Rui Bento e os irmãos Margarida e António José Cardoso são, a meu ver, os que persistem e mais se destacam, sem desprimor para outros (de que falarei a seguir) e aqueles que mais fazem lembrar a forma de estar e de agir dos antigos que acima referi.

Ao empreendedor e nem sempre compreendido Pombeiro (Ovação e Palmas) ficámos a dever o renascer das corridas de toiros nos tempos complicados dia pandemia. Não fosse ele e a sua vontade de ir em frente e provavelmente teria ficado tudo «embrulhado» e as coisas não seriam hoje como são.

O Campo Pequeno poderia resplandecer e provavelmente até ter outro fulgor se têm entregue a praça a uma candidatura «mais endinheirada» e com maior fôlego para contratar primeiras figuras e apresentar grandes cartéis. Mas há que louvar a forma como Pombeiro «se aguentou à bronca» e esteve ao leme nos anos difíceis da tempestade, das máscaras e da pandemia.

Apesar de terem tido só quatro corridas, 2023 foi a melhor temporada de Pombeiro no Campo Pequeno. Abriu com a magnífica corrida (esgotada) dos Ribeiro Telles, toureiros com outra História e outra classe, noite em que nasceu mais um para o estrelato, o filho do Maestro António, que tomou a alternativa neste festejo; trouxe uma corrida importante de Murteira Grave em Agosto; e terminou em Setembro com uma mini-feira (duas corridas, a primeira mista e a última de gala à antiga portuguesa) em que estiveram para vir Morante e Cayetano Ordoñez. Houve nível, este ano, nos elencos da primeira praça do país. 

Além disso, Luis Miguel Pombeiro atacou ainda noutras frentes e levou a efeito destacadas corridas com cartéis variados noutras praças como Alcácer do Sal, Figueira da Foz (aqui em parceria com a Tertúlia Óbvia de Zambujeira e Anão), em Idanha-a-Nova, Azambuja e Arruda dos Vinhos, entre outras organizações. Em algumas corridas, apostou no toureio a pé, coisa que vai sendo rara.

Em 2024, Pombeiro vai estar reforçado com a anunciada parceria com a empresa Toiros com Arte dos dinâmicos Jorge Dias e Samuel Silva, o que lhe pode trazer outras mais valias – e muito provavelmente um balão de oxigénio muito mais significativo do que aqueles com que contou noutras parcerias nestes últimos anos – para se aventurar em mais altos vôos no que respeita à confecção dos cartéis e à contratação de figuras.

Ricardo Levesinho (Tauroleve), por seu turno, voltou um ano mais a destacar-se pela ousadia, pelo bom gosto e pela muita aficion com que montou as corridas nas importantes praças de Vila Franca de Xira e da Moita do Ribatejo, dois dos principais palcos da nossa tauromaquia, que gere há alguns anos com sabedoria, com seriedade e com maestria. Continua a estar, a meu ver, uns pontos acima dos seus pares.

Manteve o bom nível (elevado) dos cartéis em Vila Franca, havendo a destacar a presença de Morante e a estreia de Tomás Bastos, o caso da temporada, na tarde do Colete Encarnado; e em Outubro marcou a diferença apresentando Alejandro Talavante e repetindo Tomás Bastos naquele que acabou por ser um dos maiores acontecimentos da temporada, acrescentado pela importância das presenças dos cavaleiros Rui Fernandes e João Telles e dos Forcados de Vila Franca.

Na Moita, abriu a temporada em Maio com praça esgotada e um elenco acima da média: apostou em Rui Fernandes (a celebrar 25 anos de alternativa e a marcar a diferença nas poucas corridas em que marcou presença), conseguiu por fim trazer Diego Ventura, na tarde de alternativa de Paco Velásquez. E em Setembro voltou a apostar em cartéis fortes e muito bem rematados.

Rui Bento levou a efeito quatro corridas na Nazaré, todas elas de praça cheia e que foram notáveis êxitos artísticos, havendo apenas a lamentar este ano a ausência da tradicional presença do toureio a pé. Em Almeirim, aqui em parceria com a Santa Casa, organizou também duas grandes corridas. 

Seriedade, sapiência e aficion voltaram a marcar o ano empresarial de sucesso alcançado por Rui Bento e a sua empresa Doses de Bravura, onde pontifica seu filho Rui Pedro como seu importante braço-direito.

Também a empresa Toiros & Tauromaquia, que Margarida e António José Cardoso herdaram de seu saudoso pai, o nosso sempre lembrado «Nené», honrando, dignificando e prosseguindo o seu historial, se destacou nesta temporada com corridas de praça cheia e cartéis atractivos – sobretudo em Alcochete (onde foram nossos parceiros no regresso à ribalta da Corrida «Farpas»), mas também em Reguengos de Monsaraz e em Estremoz, numa e noutra praça apostando forte nas celebrações dos 45 anos de alternativa do Maestro João Moura.

Outras empresas e empresários se destacaram e também aqui merecem ser relevadas. Caso de José Luis Gomes, que manteve a chama nas praças da Chamusca e de Sobral de Monte Agraço, tendo este ano sido responsável também pela organização da sempre animada corrida de Páscoa em Sousel. Exemplo notável aquele que deu em Setembro na praça de Sobral, repetindo em nova data a corrida da feira em que, por chuva, tinha sido lidado só um toiro. 

Em lugar de molhar os aficionados, como aconteceu em Junho em Santarém, José Luis Gomes optou por cancelar a corrida e repeti-la uns dias depois, apesar de nada o obrigar a isso, uma vez que fora já lidado o primeiro toiro. Chama-se a isto seriedade, respeito pelos aficionados e, acima de tudo, bom senso e elevado profissionalismo. No final da temporada a praça foi a concurso, mas apesar de terem aparecido uns aventureiros, a Santa Casa tomou a correctíssima decisão de voltar a entregar o leme a José Luis Gomes.

Destaque, ainda, para a vontade de triunfar e de marcar a diferença demonstradas pela dinâmica e jovem empresa Toiros com Arte, de Jorge Dias e Samuel Silva, dois empresários ligados à arte de pegar toiros e que se estão a afirmar há dois anos. Gerem, entre outras, as praças de Portalegre e Coruche, tendo-se evidenciado este ano pela organização da apoteótica e histórica encerrona do Maestro Moura na arena alentejana e pela vinda de «El Juli», em ano de despedida, à praça ribatejana.

Este próximo ano, vão trabalhar em parceria com a Ovação e Palmas de Pombeiro em todas as praças a cargo das duas empresas (exceptuando na da Figueira da Foz, onde Pombeiro continua a trabalhar conjuntamente com a Tertúlias Óbvia), incluindo no Campo Pequeno, o que, à partida, é um sinal de esperança para os aficionados.

Destaque também para os empresários Nuno Leão (São Manços); Paulo Vacas de Carvalho (Montemor-o-Novo); Rui Palma (Messejana); para a nova comissão gestora da praça de Salvaterra de Magos, aliada à experiência e à seriedade e competência de Luis Pires dos Santos (também organizador de corridas em Elvas e no Norte); para a comissão gestora da praça do Cartaxo; para José Maria Charraz em Beja e Moura; e, obviamente, para a Tertúlia Óbvia, pelo seu trabalho na Monumental do Montijo e no Coliseu Figueirense. Qualquer uma das empresas agora referidas foram responsáveis por corridas sérias e de êxito nas praças que gerem.

António Alfacinha e Carlos Ferreira levaram a bom porto a temporada na Arena D’Évora, de onde saltou este ano Francisco Mendonça Mira, por falta de tempo, dadas as outras actividades que domina (nomeadamente o apoderamento de Moura Jr.). Como em anos anteriores, houve algum desleixo no que aos toiros diz respeito nas últimas duas corridas – um erro a emendar.

Por fim, a Associação «Sector 9», responsável pela gestão da Monumental de Santarém. Depois de um ano brilhante (2022) e de outros dois anteriores fantásticos, com outro nome («Praça Cheia») e outros elementos (alguns mantiveram-se, caso de Diogo Sepúlveda, provavelmente o rosto mais emblemático do grupo), em que recuperaram a imagem e a força da praça «Celestino Graça», caindo muito justamente nas graças de todos os aficionados, depois disso, a temporada de 2023 foi a menos boa e, mesmo assim, deram-lhes a vitória na eleição de triunfadores na Gala da Tauromaquia.

Aceita-se como incentivo para o futuro e em nome do magnífico trabalho que desempenharam nos anos anteriores em prol do renascimento da Monumental de Santarém, mas a realidade é que esta foi a temporada em que menos mereciam tal prémio. Os cartéis foram muito idênticos aos do ano anterior e houve a registar a péssima decisão de ir por diante com a tristemente recordada «corrida do temporal», debaixo de chuva intensa, na tarde de 3 de Junho. Foi a corrida mais disparatada de 2023…

Por fim e em jeito de destacar um dos feitos mais importantes (e necessários) levados este ano a efeito pelos empresários tauromáquicos, até que enfim!, aplauda-se a atitude da empresa Toiros com Arte de finalmente fechar as portas e não mais contribuir com um único cêntimo para a descarada Federação PróToiro, que andou anos a fio a sacar dinheiro aos artistas, ganadeiros e empresários… sem nunca apresentar contas ou explicar minimamente para onde ia esse dinheiro…

Para acabar de vez com as suspeitas, a Toiros com Arte declarou a meio da temporada no grupo de WhatsApp da classe que não mais descontaria por corrida verba alguma para a PróToiro até que esta se retratasse e explicasse/aclarasse tão dúbia situação.

Os empresários ganharam coragem incentivados pelos dois corajosos sócios da Toiros com Arte e dias depois, numa Assembleia-Geral em Vila Franca fizeram disso decreto e lei, não mais pagando à PróToiro. Hélder Milheiro, secretário-geral da Federação, perdeu o seu tempo em reuniões magnas da classe empresarial procurando «dar a volta» à situação, mas sem sorte.

Por outras palavras: 2023 foi o ano do fim da desnecessária e pouco clara PróToiro. Paz à sua alma.

Fotos M. Alvarenga

Rui Bento e, em baixo, António e Margarida Cardoso

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